Recentemente, um consenso internacional de especialistas publicado na prestigiada revista científica The Lancet reacendeu um debate importante: o Índice de Massa Corporal (IMC) é realmente suficiente para diagnosticar obesidade? A resposta, cada vez mais sustentada pela evidência científica, é clara: NÃO.
O problema de nos focarmos apenas no peso, medido pelo IMC (Índice de Massa Corporal), utilizado como critério padrão há décadas, é que este apenas classifica as “pessoas”:
- Peso normal
- Excesso de peso
- Obesidade
Contudo, trata-se de um indicador extremamente limitado quando aplicado em contexto clínico individual. Porquê? Porque o IMC:
- Não distingue massa muscular de massa gorda
- Não avalia a distribuição da gordura corporal
- Não estima diretamente risco cardiometabólico
- Pode classificar atletas como obesos
- Pode classificar pessoas com pouca massa muscular como “saudáveis”
Ou seja, mede peso, mas não mede composição corporal. Um indicador muito limitado que não estima o risco cardiometabólico, insensível à relação músculo/gordura e distribuição da massa gorda.
O consenso publicado sugere que o diagnóstico de obesidade deve evoluir para um modelo mais abrangente, que inclua:
Percentagem de massa gorda – níveis de gordura alta e menos músculo significa menor proteção, maior inflamação e maior vulnerabilidade a doenças.
Quantidade de massa muscular – Mais massa muscular significa metabolismo mais eficiente, melhor controlo glicémico e maior proteção cardiovascular.
Gordura visceral — aquela que se acumula na zona abdominal e envolve os órgãos — está fortemente associada à resistência à insulina, diabetes tipo 2, doença cardiovascular, inflamação crónica.
Perímetro abdominal – A circunferência abdominal é um indicador simples e eficaz do risco cardiometabólico. Conseguimos avaliar a acumulação de gordura central, fortemente associada a diabetes e doença cardiovascular.
Medição da força – Medir a força permite avaliar de forma simples a saúde muscular e o risco funcional ao longo do envelhecimento. A força de preensão manual está associada à longevidade e ao risco cardiovascular.
Avaliação Funcional – Ajuda a individualizar o treino com base nas reais necessidades da pessoa, aumentando segurança e eficácia. É a base para melhorar desempenho, prevenir lesões e promover longevidade funcional.
Duas pessoas com o mesmo IMC podem ter riscos completamente diferentes. A obesidade deixa de ser apenas uma categoria baseada em peso e passa a ser entendida como uma condição clínica complexa e multifatorial.
Em jeito de conclusão o IMC continua a ser útil como ferramenta epidemiológica e de rastreio populacional. Mas, em contexto individual, é claramente insuficiente. Porque saúde não é apenas peso, é composição, função e risco metabólico.